Minha visão reacionária ou de vagabunda

Porque é como qualquer manifestante me chama ou como meus pais me chamam. Porém, pela primeira vez, agora eu tenho a minha opinião, a minha opinião medrosa.

 

No sábado, teve uma manifestação aqui em Brasília, Copa pra Quem?, e eu não fui porque tinha trabalho pra fazer e porque tinha medo.

Quem não tem, pra falar a verdade?

 

Conversando com meus amigos que foram, no domingo, fiz muitas perguntas. Fiz perguntas aos meus pais também, que é o outro extremo.

-Por que a manifestação?

Porque foi a gota d’água. Chega de impostos absurdos, chega de corrupção, chega de Marcos Feliciano, chega de Renan Calheiro. A manifestação, pelo o que entendi, foi pela falta de paciência.

-Por que estádio?

Toda a imprensa mundial estava lá, mas em nenhum momento invadiram o estádio.

-A fifa delimita um perímetro. Por que não foi respeitado?

Foi. O perímetro para carros foi de sei lá quantos metros, enquanto pros manifestantes, a entrada do estádio, que foi onde todos se concentraram.

-Quem atirou primeiro?

Foi uma boa pergunta. Os torcedores que estavam lá estavam incomodados com os manifestantes, então isso foi frustar o evento, motivo o bastante para a polícia soltar os cavalos. Desnecessário, óbvio.

Basicamente, isso foi o que ocorreu no sábado.

 

Hoje, finalmente juntei coragem pra ir. Contrariei meus pais, eu, que nunca, em momento nenhum, os desrespeitei ou os desafiei. Claro que vez ou outra falo um bocado, aí levo uma bronca e fico no meu quarto chorando.

Todos meus amigos tinham ido, tinham lutado. Era uma causa super válida, eu precisava ir. Me sentia nesta obrigação.

 

Perguntei se um amigo meu iria, um que tinha ido no sábado. Ele falou que possivelmente não, mas falou de uns meninos, de roupas brancas, que iriam.

Fui lá conversar com eles.

Super gente fina, simpáticos, me deram carona pra deixar minha mochila num lugar seguro. Eu via que todo mundo era do bem. Em geral tenho medo de pessoas, não gosto de conversar muito e panz, discrimino fumantes, mas todos foram super gente boa comigo que não tive medo de pegar carona.

 

Chegando na rodoviária, vi também muitos manifestantes indo embora no meio do evento. Os outros já tinham ocupado o gramado do congresso e estavam todos reunidos.

Vi também um homem, mochila preta, blusa vermelha, gordo, aparentando 40/50 anos, sujando o local. Os policiais tinham fechado as pistas, mas uma a uma foram a liberando. Este homem, andando em direção ao congresso, começou a jogar caixotes vazios na pista, com intuito de atrapalhar o trânsito.

Pra que, meusenhor?” eu pensava.

Mais a frente, o mesmo homem jogou um caixote de melancia [???????????????????] na rua. Mas aí um dos manifestantes foi lá e tirou o caixote do meio da rua, foi aplaudido e tudo mais.

Nessa hora, me senti muito incapaz de não ter feito isso quando vi os caixotes. “Sou uma pessoa do bem também, eu deveria ter feito algo“.

 

Muito que bem, chegamos no gramado, e foi a coisa mais linda que eu vi. Quis muito tirar uma foto, mas não tinha flash.

Vi, assim, 6/7 mil pessoas juntas, cantando, todas sentadas e organizadas… Cantando “Fora feliciano”, “sou brasileiro com orgulho” e essas palavras de poder. Queria ouvir “fora pec37”, mas devo ter chegado tarde pra isso.

Vi policiais fazendo o seu dever: impedir que os manifestantes avançassem no congresso. Tudo mundo na maior paz. Meus pais tudo falando “são todos uns baderneiros, se tivessem carros por lá, estariam todos destruídos!“. Mas, os que tavam lá, estavam intactos (não confirmo se ninguém sentou no capô, e, se tiver sentado, nada de amassado nem de gente gorda fazendo gordisse)

 

Não vi nenhum manifestante jogando água no policial, mas, se tivesse chegado a tempo, eu estaria “meudeus, que porra é essa?“. Teria ficado puta, assim como muitos manifestantes ficaram.

Soube que cantaram também “Que país é esse?“; deveria ter chegado mais cedo. Seria o momento mais lindo da manifestação se tivesse visto.

 

Quando eu fui pra manifestação, eu tive um só pensamento:

Vou fazer o que é certo. O certo é não afrontar nem as regras nem os policiais.

É isso o que penso, é isso o que sigo. Se a manifestação é pacífica, eu sigo o que é certo. E apoiei a manifestação até o momento que achei certo.

 

Quando invadiram pela primeira vez o congresso, só porque “BRASÍLIA É GRANDE, NÃO TINHA POLICIAIS ALI, NINGUÉM ME SEGURA“, eu pensei “caramba, mas o que estão fazendo?“.

E aí gritaram “sem vandalismo! sem vandalismo!“. Foi incrível! Todos queriam um evento certo. Sentia que estava no lugar certo.

 

Havia policiais na frente do congresso e cavalaria ao lado. Se havia policiais na entrada do congresso, era óbvio que não poderia tentar entrar no congresso, nem invadir nem nada. A cavalaria, até o ponto que fiquei, não fez nada, estava super na dela. O certo era não afrontar isso.

 

Quando os manifestantes invadiram por cima, em que, SIM, empurraram policiais, porque haviam policiais ali em cima, eu vi que a bagunça estava feita. Estava me perguntando “o que eles estão fazendo ali? Não era pro evento ser certo?

Perguntei pra outra menina que estava no gramado, o motivo daquilo.

-Ah, é só pela bagunça. Mostrar que o povo tem poder.

Poder de enfrentar a polícia? Mas o manifesto não era pra enfrentar a polícia!

-Tanto que ninguém enfrentou.

E empurrar não é uma afronta? Quando cortaram a barreira policial da rampa?

-Não, é diferente.

Quando comecei a notar, todos estavam indo pro congresso, pro terraço/telhado dele. Eu fiquei sozinha. Apavorada. Como que eu podia ser a única que pensava isso? Como estragaram um movimento super pacífico em bagunça? Sim, aquilo foi bagunça.

 

Pra mim, foi uma afronta. Este poderia ter sido o evento mais pacífico do Brasil, e, como todos os manifestantes estão vendo, “foi! Ninguém nos segura agora! Foi simbólico a subida!”.

Os caras pintadas que, não, não são vocês, tinham motivo, organização e tudo mais de diferente do que vocês. Nós temos sim capacidade de fazer uma manifestação pacífica, seguindo o que é certo. Sé é pra confrontar a polícia, chamem de guerra civil.

 

Se algum policial tivesse empurrando qualquer manifestante, iam tacar água nele, iam vaiá-lo e todo o mimimi. O contrário ninguém comenta.

-Nenhum policial foi empurrado nem afrontado.

Não, só tinham muitos na frente do congresso, falando “não avancem pra cá, estamos aqui pra manter a ordem“. Aí vocês, fodões, dão um “olé” neles e seguem pela outra rampa.

 

E não adianta o quanto que eu fale que foi errado o que fizeram, que isso não é pacífico, porque, a bem realidade, é que sou reacionária. Mas a bem verdade também é que sou vagabunda, porque estou do lado deles.

 

Regras foram feitas para serem seguidas. Manifestações pacíficas seguem as regras.

 

Eu irei nas próximas manifestações acreditando no meu ideal. As coisas não são as mil maravilhas e os policiais tudo truculento como todos dizem, assim como os manifestantes não são todos de bem e sim, há baderneiros e há outros políticos que querem se aproveitar do nosso protesto.

 

Por sinal, não tive apoio de ninguém quando voltei pra casa. Quando eu tava com medo, sozinha na esplanada, nem do meu namorado eu tive apoio. Basicamente, eu sou a única que está vendo desta forma, porque não há meio termo, só dois extremos.

 

Mas da próxima vez, eu tirarei fotos. E quero ver que manifestante e que policial irá me calar.